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A diferença entre ser um psicólogo querido e ser um psicólogo respeitado

Existe uma linha fina entre o desejo de ser querido e a necessidade de ser respeitado. E, às vezes, a escola inteira parece nos empurrar exatamente para esse conflito. Quem trabalha em contexto escolar sabe bem: há uma expectativa silenciosa de que o psicólogo seja sempre compreensivo, sempre disponível, sempre “fazedor de milagres” que resolvem conflitos, acalmam tensões e suavizam tudo ao redor.

É muito fácil deslizar para esse lugar. É gostoso ser querida. É gostoso quando professores elogiam, quando alunos se aproximam com afeto, quando a gestão diz que você é essencial. Só que, se a gente não presta atenção, esse carinho vira um pedido constante para abrirmos mão da nossa função para atender às necessidades que a escola tem de nós, e não das que nosso trabalho realmente exige.

Ceder ao que a escola quer é tentador. Às vezes, até automático. A gente diz “sim” para não decepcionar. Ganha tarefas que não são nossas. Assume demandas que fogem totalmente do papel profissional. E quando percebe, já está mais no lugar de agradar do que no lugar de sustentar critérios técnicos.

É aqui que mora a diferença entre ser querida e ser respeitada.

O psicólogo querido agrada. O psicólogo respeitado posiciona. O psicólogo querido evita conflitos. O psicólogo respeitado sustenta conversas difíceis. O psicólogo querido diz “eu ajudo”. O psicólogo respeitado pergunta “qual é o papel do psicólogo aqui?”.

E ser respeitada não tem nada a ver com ser dura ou distante. Na verdade, tem muito mais a ver com não se anular. Ser respeitada é quando você continua sendo acolhedora, mas não abre mão da sua função para ganhar simpatia. É quando você escuta com empatia, mas não se cala quando precisa nomear algo incômodo. É quando você contribui com sensibilidade, mas mantém o foco naquilo que realmente tem impacto na instituição.

Quando a gente se anula para ser querida, o custo emocional é alto. Vem a exaustão, a sensação de inadequação, aquela irritação silenciosa de quem percebe que está trabalhando demais, no lugar errado e sem reconhecimento real. Porque agrado nunca gera reconhecimento profundo. Só o trabalho consistente e ético faz isso.

A maturidade profissional aparece quando entendemos que ser querida pode ser uma consequência, mas jamais pode ser o objetivo. O objetivo é ser coerente, ética, clara e firme. E, paradoxalmente, quando o respeito se consolida, o carinho que vem depois é muito mais autêntico. Não é fruto de agrado. É fruto de confiança.

Para mim, a grande virada é entender que não se trata de escolher entre uma coisa e outra. Eu posso ser próxima sem ser permissiva. Posso ser acolhedora sem me submeter. Posso ser querida sem perder meu lugar. E posso ser respeitada enquanto continuo sendo humana.

No fim, o que faz diferença não é se sou querida, mas se estou sendo verdadeira comigo mesma e com a função que ocupo. É isso que sustenta meu trabalho, meu bem-estar e, principalmente, o impacto que desejo deixar na escola.


 
 
 

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