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Cheguei à escola. E agora? Os primeiros passos para construir uma atuação em Psicologia Escolar

há 11 minutos
10 min de leitura

Por onde começar quando você chega a uma escola e encontra inúmeras demandas, expectativas e desafios? Conheça alguns caminhos para construir uma atuação crítica, institucional e comprometida com a realidade escolar.

Chegar a uma escola para atuar como psicólogo escolar pode despertar uma mistura de sentimentos: entusiasmo, expectativas, insegurança e, principalmente, muitas dúvidas. Afinal, por onde começar? O que fazer nos primeiros dias? Como organizar o trabalho diante de tantas demandas?

Essas perguntas são especialmente comuns entre profissionais que estão iniciando na Psicologia Escolar. E não é para menos! Muitas vezes, chegamos às instituições sem conhecer sua dinâmica, suas relações, suas dificuldades e, ainda assim, encontramos pessoas esperando que tenhamos respostas e soluções para problemas que existem há anos.

É comum que, logo nos primeiros dias, a gestão apresente uma lista de estudantes que precisam de atendimento: aquele que não aprende, o que apresenta comportamentos considerados inadequados, o que não consegue permanecer em sala de aula, o que parece desmotivado ou aquele que está enfrentando dificuldades emocionais.

Diante desse cenário, o psicólogo iniciante pode sentir que precisa começar imediatamente a atender esses estudantes para demonstrar que está trabalhando.

Mas será que começar a atender as demandas que chegam é, necessariamente, a melhor maneira de iniciar nossa atuação?

Ao longo da minha experiência na Psicologia Escolar, fui compreendendo que um dos primeiros desafios da profissão é justamente aprender a não responder de maneira imediata a todas as solicitações. Antes de propor intervenções, precisamos conhecer a realidade em que estamos inseridos, compreender como as demandas são produzidas e identificar quais possibilidades de atuação fazem sentido naquele contexto.

E é sobre esse processo que quero conversar neste texto.

1. Antes de intervir, conheça a escola

Um dos equívocos que podemos cometer ao iniciar o trabalho é chegar à instituição com um planejamento pronto, elaborado a partir de temas que consideramos importantes, mas sem conhecer suficientemente aquela realidade.

É claro que podemos ter ideias, propostas e recursos previamente organizados. Entretanto, uma atuação comprometida com a Psicologia Escolar Crítica exige que essas propostas sejam construídas em diálogo com as necessidades concretas da comunidade escolar.

A escola não é apenas um espaço onde encontramos estudantes com dificuldades de aprendizagem ou comportamento. É uma instituição atravessada por relações sociais, condições de trabalho, práticas pedagógicas, políticas educacionais, histórias e contradições.

Marilene Proença Rebello de Souza (2010), ao discutir a atuação do psicólogo na educação, destaca a importância de compreender os processos de escolarização e superar explicações que atribuem exclusivamente aos estudantes e às famílias a responsabilidade pelas dificuldades vivenciadas na escola.

Isso significa que, antes de perguntar por que determinado estudante não aprende, precisamos também compreender como o ensino está organizado, quais condições de aprendizagem são oferecidas e como as relações institucionais participam desse processo.

Conhecer a escola é, portanto, muito mais do que conhecer seus espaços físicos. É compreender suas relações, seus modos de funcionamento e as concepções que orientam suas práticas.

Por onde começar?

  • Converse com a equipe gestora e a coordenação pedagógica para conhecer a história da instituição, sua organização e os principais desafios identificados.

  • Conheça o Projeto Político-Pedagógico (PPP), o regimento escolar e outros documentos que orientam o funcionamento da escola.

  • Circule pelos diferentes espaços: salas de aula, corredores, pátio, biblioteca e demais ambientes.

  • Observe a rotina escolar, os momentos de entrada, intervalo, saída e as interações entre os diferentes sujeitos.

  • Converse com professores, estudantes e demais trabalhadores da instituição.

Essas aproximações ajudam a construir uma compreensão inicial da escola e, ao mesmo tempo, permitem que as pessoas conheçam o profissional que está chegando.

E aqui cabe uma observação importante: não precisamos transformar cada conversa em uma entrevista formal. Muitas informações relevantes aparecem nas interações cotidianas, nas situações que observamos e nos espaços de convivência.

2. O diagnóstico institucional é um ponto de partida, não uma formalidade

Depois dessa aproximação inicial, é importante organizar um processo de diagnóstico institucional.

Quando falo em diagnóstico institucional, não estou me referindo à identificação de transtornos, à classificação dos estudantes ou à elaboração de uma lista de problemas individuais.

Estou falando de um processo de investigação e compreensão da realidade escolar, construído a partir da escuta dos diferentes sujeitos que participam da instituição.

Essa perspectiva dialoga com as contribuições de Maria Helena Souza Patto (1990), especialmente ao questionar explicações individualizantes para o fracasso escolar e evidenciar a necessidade de compreender os processos históricos, sociais e institucionais envolvidos na escolarização.

Na prática, isso significa reconhecer que uma mesma situação pode ser compreendida de maneiras diferentes.

Por exemplo, a gestão pode apontar a indisciplina como o principal problema da escola. Os professores podem destacar a falta de participação das famílias. Já os estudantes podem relatar que não se sentem ouvidos, que existem conflitos entre colegas ou que determinadas práticas escolares dificultam sua participação.

Qual dessas percepções está correta?

O trabalho do psicólogo não consiste simplesmente em escolher uma delas, mas em compreender como essas diferentes perspectivas se relacionam, quais contradições revelam e o que nos dizem sobre o funcionamento institucional.

O diagnóstico institucional nos ajuda a sair da lógica de trabalhar apenas com aquilo que chega como urgência e começar a identificar necessidades que nem sempre aparecem nas solicitações iniciais.

Como realizar esse diagnóstico?

Não existe uma única maneira. Podemos utilizar diferentes estratégias, considerando a realidade e as características da instituição:

  • Entrevistas ou conversas com gestores, coordenadores e professores;

  • Rodas de conversa com estudantes;

  • Questionários para os diferentes segmentos da comunidade escolar;

  • Observações em sala de aula e em outros espaços;

  • Atividades lúdicas que favoreçam a expressão dos estudantes;

  • Análise de documentos e indicadores escolares.

Gosto particularmente de pensar em estratégias que possibilitem a participação dos estudantes de maneira mais ativa. Afinal, nem sempre um questionário tradicional é o recurso mais adequado para compreender o que crianças e adolescentes pensam sobre a escola.

Jogos, painéis coletivos, perguntas disparadoras e outras propostas participativas podem contribuir para que eles expressem suas percepções sobre as relações, os espaços, as dificuldades e as possibilidades de mudança.

Entretanto, é importante destacar que o diagnóstico institucional não termina na coleta das informações.

É necessário organizar o material produzido, analisar as demandas, identificar prioridades e realizar devolutivas à comunidade escolar. Sempre que possível, essas devolutivas também devem abrir espaço para a construção coletiva de encaminhamentos.

Além disso, o diagnóstico não precisa acontecer apenas no início do trabalho. A realidade escolar é dinâmica e exige que nossas compreensões sejam constantemente revistas.

3. Construa vínculos antes de esperar participação

Outro aspecto fundamental no início da atuação é a construção de vínculos com a comunidade escolar.

E aqui existe algo que considero importante destacar: o simples fato de sermos psicólogos não significa que as pessoas se sentirão automaticamente confortáveis para conversar conosco ou participar das nossas propostas.

A confiança precisa ser construída.

Em algumas escolas, os profissionais podem ter experiências anteriores com uma Psicologia centrada na avaliação e no atendimento individual. Em outras, o psicólogo pode ser visto como alguém que está ali para resolver conflitos, orientar comportamentos ou identificar problemas.

Por isso, além de conhecer a instituição, precisamos apresentar nossa proposta de trabalho e construir, gradualmente, uma compreensão compartilhada sobre nossas possibilidades de atuação.

Isso envolve estar presente no cotidiano escolar, ouvir as pessoas, participar dos espaços coletivos e demonstrar disponibilidade para construir soluções em conjunto.

Uma conversa com uma professora durante o intervalo, a participação em uma reunião pedagógica ou a escuta de um funcionário sobre uma dificuldade cotidiana podem ser oportunidades importantes de aproximação.

Mas atenção: construir vínculos não significa assumir todas as demandas que chegam até nós.

Pelo contrário, estabelecer relações de confiança também envolve comunicar com clareza nossos limites profissionais e explicar por que determinadas situações exigem intervenções coletivas, pedagógicas ou articulações com outros serviços.

O vínculo não se constrói apenas quando oferecemos respostas. Ele também se fortalece quando conseguimos escutar, dialogar e construir caminhos possíveis junto com a comunidade escolar.

4. Nem toda demanda precisa se transformar em atendimento individual

Talvez este seja um dos maiores desafios para quem está começando.

É muito comum que o psicólogo escolar receba solicitações como:

"Você pode atender esse aluno? Ele não para quieto na sala."

"Essa estudante está com dificuldade de aprendizagem. Acho que precisa conversar com a psicóloga."

"Tem uma turma muito difícil. Você precisa fazer alguma coisa com eles."

Essas solicitações não devem ser simplesmente ignoradas. Elas expressam preocupações reais dos profissionais e precisam ser acolhidas e compreendidas.

Entretanto, acolher uma demanda não significa necessariamente responder a ela da maneira como foi apresentada.

A Psicologia Escolar Crítica nos convida a questionar a tendência histórica de localizar no estudante a origem dos problemas escolares, desconsiderando os processos pedagógicos, institucionais e sociais que participam da produção dessas dificuldades.

As Referências Técnicas para Atuação de Psicólogas(os) na Educação Básica, do Conselho Federal de Psicologia (2019), reforçam a importância de uma atuação comprometida com os processos educativos, com a participação da comunidade escolar e com a superação de práticas individualizantes e patologizantes.

Isso não significa que o psicólogo escolar não possa realizar acolhimentos individuais ou escutas pontuais quando necessários. Significa reconhecer que a atuação na escola não deve se organizar como um serviço de psicoterapia individual para estudantes.

Vamos pensar em um exemplo.

Imagine que a coordenação solicite atendimento para cinco estudantes de uma mesma turma, alegando que todos apresentam comportamentos inadequados.

Uma resposta imediata seria organizar uma agenda de atendimentos individuais com esses estudantes.

Mas poderíamos começar fazendo outras perguntas:

  • O que está acontecendo nessa turma?

  • Em quais situações esses comportamentos aparecem?

  • Como estão as relações entre os estudantes e os professores?

  • Quais estratégias pedagógicas já foram utilizadas?

  • Como os próprios estudantes compreendem os conflitos?

  • Existem dificuldades na organização da rotina, nas relações ou nas condições de ensino?

Percebe a diferença?

Em vez de considerar cinco estudantes como problemas individuais, começamos a investigar uma situação que pode envolver toda a dinâmica da turma.

A partir dessa compreensão, podemos construir propostas com professores, estudantes e equipe pedagógica, considerando as necessidades identificadas.

Esse movimento não exclui a atenção às singularidades dos estudantes. Ele apenas evita que a individualização seja nossa primeira e única resposta.

5. Planeje intervenções a partir das necessidades identificadas

Depois de conhecer a escola, ouvir os diferentes segmentos e analisar as demandas, chega o momento de organizar o planejamento.

E aqui quero compartilhar uma reflexão: não precisamos fazer muitas atividades para construir uma atuação significativa. Precisamos compreender por que estamos realizando cada uma delas.

É comum que, especialmente no início da profissão, sintamos necessidade de demonstrar nosso trabalho por meio de uma agenda cheia de palestras, oficinas, rodas de conversa e campanhas.

Essas estratégias podem ser importantes, mas não devem se tornar um fim em si mesmas.

Uma oficina sobre bullying, por exemplo, pode ser interessante. Entretanto, se a escola apresenta situações recorrentes de violência entre estudantes, uma única atividade dificilmente será suficiente para transformar essa realidade.

Talvez seja necessário construir um trabalho continuado, envolvendo estudantes, professores, gestão e famílias, além de discutir práticas institucionais de prevenção e enfrentamento.

Da mesma forma, uma palestra sobre saúde mental dos professores não substitui a necessidade de discutir condições de trabalho, relações institucionais e fatores que contribuem para o sofrimento docente.

Por isso, ao planejar uma intervenção, considero importante responder a algumas perguntas:

Qual necessidade queremos enfrentar? Identifique a situação que fundamenta a proposta, evitando trabalhar apenas com temas genéricos.

Qual é o nosso objetivo? Defina o que pretendemos favorecer ou transformar com aquela intervenção.

Quem precisa participar? Considere quais sujeitos estão envolvidos na situação e quais devem participar da construção das estratégias.

Que ações fazem sentido nesse contexto? Escolha metodologias compatíveis com as necessidades, as condições e as possibilidades da instituição.

Como vamos acompanhar os resultados? Pense em maneiras de avaliar a participação, as mudanças percebidas e os encaminhamentos necessários.

Essas perguntas ajudam a construir um planejamento mais coerente e evitam que nossa atuação se transforme em uma sequência de atividades desconectadas.

Também considero importante estabelecer prioridades. Nem tudo poderá ser realizado ao mesmo tempo, especialmente quando o psicólogo acompanha mais de uma instituição.

Planejar é também reconhecer limites, negociar possibilidades e organizar o trabalho de maneira sustentável.

6. Não tente construir sua atuação sozinho

Embora o psicólogo tenha conhecimentos específicos que contribuem para a compreensão dos processos educativos, a transformação da realidade escolar não depende exclusivamente de sua atuação.

A escola é uma instituição coletiva e exige a participação de diferentes profissionais.

A Lei nº 13.935/2019, que dispõe sobre a prestação de serviços de Psicologia e Serviço Social nas redes públicas de educação básica, estabelece que esses profissionais devem atuar por meio de equipes multiprofissionais, considerando as necessidades e prioridades definidas pelas políticas de educação.

Esse marco legal reforça a importância de uma atuação articulada com os processos educativos e com os demais profissionais.

Na prática, isso significa construir parcerias com gestores, coordenadores, professores, assistentes sociais e outros integrantes da comunidade escolar, respeitando as atribuições de cada área.

Também significa reconhecer quando determinadas situações exigem articulação com a rede de saúde, assistência social ou proteção de direitos.

Um dos aprendizados mais importantes na Psicologia Escolar é compreender que nosso papel não é oferecer respostas isoladas para todos os problemas, mas contribuir para a construção de análises e estratégias coletivas.

E isso exige diálogo, negociação e disposição para trabalhar com diferentes perspectivas.

7. Dê tempo ao processo, mas não perca a intencionalidade

Quero encerrar trazendo uma questão que considero especialmente importante para quem está iniciando: nem sempre os resultados do nosso trabalho serão imediatos ou facilmente visíveis.

Às vezes, passamos semanas conhecendo a instituição, conversando com os profissionais, observando situações e organizando informações. E pode surgir aquela sensação incômoda de que ainda não estamos fazendo o suficiente.

Mas precisamos compreender que observar, escutar, analisar e planejar também fazem parte do trabalho do psicólogo escolar.

Isso não significa permanecer indefinidamente na fase de diagnóstico, sem construir intervenções. Significa reconhecer que uma atuação fundamentada exige tempo para compreender a realidade, mas também intencionalidade para transformá-la.

Com o passar do tempo, começamos a perceber mudanças que nem sempre aparecem em números: uma equipe que passa a discutir suas dificuldades de maneira mais coletiva, professores que começam a questionar explicações exclusivamente individuais para os problemas de aprendizagem, estudantes que encontram espaços de participação ou gestores que passam a compreender melhor as possibilidades da Psicologia Escolar.

São movimentos que precisam ser acompanhados, avaliados e fortalecidos.

A atuação do psicólogo escolar não se constrói de uma vez. Ela vai sendo produzida nas relações, nas escolhas profissionais, nos desafios cotidianos e na capacidade de refletir criticamente sobre a própria prática.

Para finalizar...

Se você está chegando agora à Psicologia Escolar e ainda não sabe exatamente por onde começar, quero deixar uma reflexão:

Você não precisa chegar à escola com todas as respostas. Mas precisa estar disposto a construir boas perguntas.

Antes de pensar em qual atividade realizar, procure compreender o que acontece naquela instituição. Antes de atender individualmente um estudante encaminhado, investigue as condições e relações que atravessam sua experiência escolar. Antes de elaborar um projeto, escute quem participa daquela realidade.

E, principalmente, não confunda uma agenda cheia de atividades com uma atuação necessariamente significativa.

A Psicologia Escolar tem muito a contribuir com a educação, mas essa contribuição se fortalece quando deixamos de ocupar o lugar de quem deve resolver individualmente os problemas e passamos a participar da construção coletiva de uma escola mais democrática, inclusiva e comprometida com o desenvolvimento humano.

Mais importante do que chegar fazendo é compreender o que fazemos, por que fazemos e a serviço de qual projeto de educação estamos atuando.

E você, psicólogo escolar, qual foi sua maior dificuldade quando chegou à escola? Compartilhe sua experiência nos comentários. Sua vivência pode ajudar outros profissionais que estão começando agora!

Referências

BRASIL. Lei nº 13.935, de 11 de dezembro de 2019. Dispõe sobre a prestação de serviços de psicologia e de serviço social nas redes públicas de educação básica. Brasília, DF, 2019.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Referências técnicas para atuação de psicólogas(os) na educação básica. 2. ed. Brasília: CFP, 2019.

PATTO, Maria Helena Souza. A produção do fracasso escolar: histórias de submissão e rebeldia. São Paulo: T. A. Queiroz, 1990.

SOUZA, Marilene Proença Rebello de. Psicologia Escolar e políticas públicas em Educação: desafios contemporâneos. Em Aberto, Brasília, v. 23, n. 83, p. 129–149, 2010.


 
 
 

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